Sexta-feira, 22 de janeiro, 9 horas da manhã. Pelo menos 600 meninas se aglomeram do lado de fora do Centro de Treinamento do Santos Futebol Clube.
Elas vieram de longe, os 22 estados do país estão representados nas expressões ansiosas das garotas que esperam sua vez de mostrar do que são capazes de fazer com a bola nos pés.
É o segundo dia da peneira que o Santos promove para encontrar novos talentos. No dia anterior, outras 600 meninas já haviam desfilado suas habilidades diante do olhar atento de Kleiton Lima, técnico do time feminino profissional do Santos, o Sereias da Vila, e também da Seleção Brasileira (veja ainda hoje post com as dicas de Kleiton e do preparador de goleiras do Santos, Ricardo Navarro).
Há vários sinais de que as coisas mudaram quando o assunto é mulher e futebol. O mais evidente deles é a presença maciça de pais e mães acompanhando suas filhas no vestibular da bola. “Desde criança que ela gosta de futebol e saía chutando a cabeça das bonecas que a gente dava de presente”, disse Luis Donizete, que saiu de São João da Boa Vista para levar a filha, Ana Beatriz, de 14 anos, para fazer a peneira do Santos.
“O pastor da minha igreja recomenda que a gente incentive a prática de esportes, assim nossos filhos e filhas ficam longe das drogas”, emendou Antonio, que saiu de Ribeirão Pires para acompanhar o teste da filha Kath Bárbara, de 16 anos.

A candidata a atacante, Ana Beatriz e o pai Donizete
Mas não foram só as mulheres que passaram a encarar o futebol de outra maneira. Até pouco tempo atrás, uma moça que quisesse ganhar a vida dentro das quatro linhas, tinha que superar o preconceito de toda a sociedade. E ele se manifestava primeiro dentro de casa. “Saí de casa para jogar no Juventus sem o apoio do meu pai, que dizia que futebol é coisa de homem. Hoje ele pensa diferente e me apoia mas foi preciso muita determinação pra chegar aonde eu cheguei”, diz Sandrinha, volante do time feminino principal do Santos e que já esteve na Seleção Brasileira.

Sandra, do Sereias da Vila: "É preciso muita determinação pra chegar aonde eu cheguei"
Craques da bola como Sandrinha, Cristiane e a rainha dos gramados, Marta, ajudam a diminuir o preconceito. Tanto que a mesma peneira do Santos no ano passado reuniu cerca de 500 garotas - neste ano foram 1.100 candidatas.
Essas estrelas servem de exemplo para as meninas que sonham em repetir dentro e fora de campo a trajetória das musas inspiradoras. Mas há também quem queira ser a versão feminina de um Dentinho, ou um Dagoberto. Como a candidata a atacante Bruna. De tão fã do camisa 31 do Corinthians, Bruna tatuou o nome da mãe num braço e o da avó no outro. Quando chegou sua vez de se apresentar ao técnico Kleiton, Bruna fez dois gols e repetiu o gesto característico do atacante do Timão e beijou os dois braços.

Bruna e a família: comemoração à lá Dentinho
Cada menina teve trinta minutos para convencer o técnico que merecem uma chance no clube que hoje é o que mais investe no futebol feminino.
“Garra e determinação são ingredientes que não podem faltar para quem quer se firmar em qualquer profissão e, no futebol não é diferente”, recomenda Kleiton Lima. Ele diz que não foi só o preconceito que mudou. O nível técnico das garotas evoluiu muito. “Hoje a gente consegue ser mais exigente e consegue avaliar muito melhor do que há alguns anos”.
Em meio a mais de 1 mil meninas, uma se destacava não só pela desenvoltura para dar entrevistas mas pelo ar de missão cumprida. Jenyffer Leonela saiu de Goiânia com o pai, viajou 13 horas de carro para chegar a Santos. Participou do primeiro dia da peneira. E foi uma das cinco selecionadas! “A alegria que eu senti eu nunca tinha sentido antes”, comentou a atacante de 15 anos.
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