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DISTORÇÃO DE UMA PALAVRA PROVOCA DERROTA DO CANDIDATO FAVORITO

terça-feira, novembro 14th, 2017
Dutra, Yeddo e Eduardo Gomes

Dutra, Yeddo e Eduardo Gomes

Getúlio Vargas foi deposto no dia 29 de outubro de 1945, tendo assumido a chefia de governo, provisoriamente, o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares. Foi ele quem marcou novas eleições presidenciais para o dia 02 de dezembro daquele mesmo ano. A população, depois de 15 anos de ditadura,  regime durante o qual o Brasil ficou sem eleições,  já havia desaprendido de como votar. Por essa razão, o rádio e os cinejornais  exibidos nos cinemas antes dos filmes tiveram grande importância para que a Justiça Eleitoral ensinasse, passo a passo, o processo de votação, lembrando que televisão ainda não existia no Brasil:

Participaram daquela eleição o Brigadeiro Eduardo Gomes, Yedo Fiúza, Mario Rolim Teles e o Marechal Eurico Gaspar Dutra.  Numa hábil manobra comandada pelo político Hugo Borghi, engajado na campanha de Dutra, uma frase proferida num comício pelo candidato que liderava a preferência do eleitorado, Eduardo Gomes, foi distorcida e usada em favor de Dutra.  Disse ele “que não precisava dos votos da malta de desocupados que apoiava o adversário”. Borghi distribuiu milhões de panfletos pelo Brasil afora e deu entrevistas em rádios, jornais e revistas afirmando que o Brigadeiro tinha dito que não precisava de votos de marmiteiros, quando em verdade tinha usado a expressão malta.  Como se não bastasse a inversão, transformou a marmita em símbolo da candidatura Gaspar Dutra:

A distorção de uma frase e a capitalização da mentira que se produziu acabou com as possibilidades do Brigadeiro Eduardo Gomes conquistar a presidência da República em 1945.  Ganhou o Marechal Eurico Gaspar Dutra, com 55% dos votos, enquanto o Brigadeiro recebeu 34%, ficando em segundo lugar. Yeddo Fiuza, com somente 9%, ficou em terceiro.

ELEIÇÃO DO GOVERNADOR ABREU SODRÉ

terça-feira, novembro 7th, 2017

ABREU SODRÉ

No dia 03 de novembro de 1966, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou, pelo processo de eleição indireta, o nome indicado pelo governo militar para suceder o governador paulista Laudo Natel. O anúncio do resultado foi feito pelo presidente da Assembleia, deputado Francisco Franco:

Roberto Costa de Abreu Sodré, que tinha certeza da aprovação de seu nome devidamente referendado por Brasília, levou um discurso pronto e, após ser citado como futuro governador, anunciou as linhas mestras que implantaria no seu governo, sendo uma delas o rigor em relação ao funcionalismo público:

Abreu Sodré governou São Paulo de janeiro de 1967 a março de 1971, quando foi sucedido por aquele que já o havia antecedido, Laudo Natel, também eleito pelo processo indireto e devidamente apadrinhado pelo governo militar.

FIM DRAMÁTICO DE UMA GRANDE EMPRESA

terça-feira, outubro 24th, 2017

vasp

Dia 12 de novembro de 1933, dois aviões MONOSPAR com capacidade para três passageiros decolaram do Campo de Marte. Um deles com destino a São José do Rio Preto, escalando em São Carlos, enquanto o outro seguiu para Uberaba com uma escala intermediária em Ribeirão Preto. Era o início de operações da Viação Aérea São Paulo – VASP. Ao longo dos anos, especialmente depois que o governo do Estado tornou-se sócio majoritário da empresa, ela cresceu muito e chegou a ser a segunda melhor companhia aérea do País, até que resolveram privatiza-la. Quem a comprou foi o empresário Wagner Canhedo numa discutível e misteriosa transação. No comecinho do mês de outubro de 1990 ele tomou posse na presidência da empresa fazendo promessas que nunca cumpriria. Na concorrida cerimonia de posse também estava o governador Orestes Quércia com vaticínios mirabolantes que jamais se concretizaram:

Enterrada em dívidas, com uma frota de aviões já obsoletos, a VASP foi se arrastando de outubro de 1990 até janeiro de 2005, quando deixou de voar. Em setembro de 2008 foi decretada, em primeira instância, a falência da companhia. Depois de muitos recursos interpostos, depois de muitas idas e vindas, o STF fechou a questão em junho de 2013 decidindo pela falência da empresa. A VASP, sem dúvida, escreveu um dos mais belos capítulos de nossa aviação comercial, mas, infelizmente, também deixou milhares de aeronautas e aeroviários a VER NAVIOS, ou, a expressão mais adequada talvez seja: A VER AVIÕES ABANDONADOS pelos aeroportos do País. Até hoje a maioria não recebeu nem mesmo seus direitos trabalhistas.

POR POUCO SARNEY ESCAPOU

terça-feira, outubro 3rd, 2017

sequestro avião VASP

Se viagem aérea já é estressante para muita gente, imagine ter a bordo um sequestrador atirando a esmo? É a situação que viveram os 98 passageiros do voo 375 da Vasp que decolou de Porto Velho no dia 29 de setembro de 1988. O destino do Boeing 737-300, com 7 tripulantes, era o Rio de Janeiro com escalas em Brasília, Goiânia e Belo Horizonte. No trecho final entre a capital mineira e o Rio surge em cena Raimundo Nonato Alves da Conceição, um maranhense de 28 anos que havia perdido o emprego e em desespero resolveu protestar jogando o avião de encontro ao Palácio do Planalto com o objetivo de matar o presidente da República, seu conterrâneo José Sarney. Já no inicio de sua ação o criminoso acertou um tiro em um dos comissários de bordo, depois fraturou a perna do engenheiro de voo com outro disparo e, invadindo a cabine de comando, deu mais um tiro, desta vez contra o copiloto Salvador Evangelista, que morreu na hora. Graças à frieza do comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, uma tragédia muito maior foi evitada. Ele conseguiu convencer o sequestrador de que precisava pousar imediatamente em Goiânia porque o combustível estava se esgotando, e realmente estava. Só após o pouso o desequilibrado foi dominado e todos os passageiros levados para um hotel. Um deles foi entrevistado pela repórter da Rádio Bandeirantes Marilú Cabañas e contou o terrível drama que haviam acabado de enfrentar:

Após o pouso em Goiânia, no começo da tarde, as negociações com o sequestrador Raimundo Nonato continuaram. Ele exigiu, inclusive, que um avião menor fosse colocado à sua disposição e, quando descia as escadas do Boeing, tendo o comandante Fernando Murilo como escudo, foi baleado três vezes pelas forças policiais e 72 horas depois morreu no hospital. Somente em outubro de 2001, treze anos depois do evento, o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva teve sua conduta reconhecida, sendo homenageado com o troféu Destaque Aeronauta. A propósito, José Sarney, a quem também muito provavelmente o comandante Fernando Murilo salvou a vida, nestes 29 anos decorridos do episódio jamais se dirigiu ao piloto para dizer-lhe ao menos OBRIGADO. Não sendo eleitor no Maranhão nem no Amapá para que agradecer, não é mesmo?

ATÉ NA PROPAGANDA A POLÍTICA JÁ FOI MELHOR

terça-feira, setembro 26th, 2017

LUCAS NOGUEIRA GARCEZ

Há certas coisas da política de antigamente que deixaram muita saudade. Não está em discussão a honestidade, a dedicação, a competência, a qualidade moral dos políticos. Em maior ou menor escala, o que aí está, sempre aqui esteve. O que deixou saudade para muita gente foi o modelo de campanha eleitoral, principalmente os comícios que mobilizavam os bairros da Capital e cidades inteiras do Interior. Algumas chegavam a decretar feriado quando o comício era de candidato muito popular como Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Adhemar de Barros, Juscelino Kubitschek etc. A propaganda no rádio era resultado de produções do melhor bom gosto. Verdadeiras novelas seriadas, com capítulos diários de 5 minutos irradiados geralmente três vezes ao dia e aguardados com ansiedade. Ouçam trecho da propaganda de um dos candidatos ao governo de São Paulo em 1950. O texto é do genial Osvaldo Moles, narração Randal Juliano, uma das vozes mais bonitas do rádio daqueles tempos, interpretação musical do Trio Madrigal que veio do Rio de Janeiro especialmente para essa gravação:

Em compensação, um quarto de século mais tarde, graças as novas regras impostas pelo regime militar para a propaganda eleitoral, ficamos assim:

Durante meia hora os candidatos da Arena e depois mais meia hora com a turma do MDB. Imagine uma hora escutando isso! Lembrando que a Arena e o MDB foram criados em 1966 acabando com o multipartidarismo no Brasil. A Arena era o partido do governo e o MDB agrupava a oposição. Em 1979 o bipartidarismo foi revogado e a Arena foi rebatizada de PDS e o MDB virou PMDB e para fazer-lhes companhia foram criadas dezenas de novas agremiações, algumas com o único objetivo de alugar seus espaços no rádio e na tv a quem pagar mais, não importando a que corrente ideológica pertença.

DIVIDIR O PODER? POIS SIM!

terça-feira, setembro 19th, 2017

PARLAMENTARISMO

No dia 11 de setembro de 1961, o programa da Rádio Bandeirantes A Marcha dos Acontecimentos, em edição especial, focalizou os tumultuados acontecimentos daquela semana culminando com a eleição do primeiro ministro do regime de governo que acabara de ser criado no Brasil:

Durou pouco o regime parlamentarista aprovado pelo Congresso no dia 02 de setembro de 1961, isto é, apenas 17 meses durante os quais o Brasil teve três primeiros-ministros: Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima. Já se vê, as disputas por espaços políticos no Brasil independem do regime de governo. Anteriormente o País já vivera a experiência do Parlamentarismo, a partir de 1847, durante o reinado de Dom Pedro II. Ocorre que o imperador detinha o direito de dissolver a Câmara dos Deputados quando bem lhe conviesse, especialmente em derrotas nas eleições, além disso o Conselho de Ministros era subordinado à escolha de Dom Pedro II. Isso significa que aquele foi um parlamentarismo às avessas que o Brasil adotou e que terminou com a Proclamação da República em 1889. E teve uma terceira tentativa de se restabelecer o Parlamentarismo no Brasil por intermédio de um plebiscito realizado no dia 21 de abril de 1963, rejeitado pela população que optou pelo regime republicano e pelo sistema presidencialista, ainda vigentes.

LACERDA, IMBATÍVEL NA ORATÓRIA

terça-feira, agosto 29th, 2017

CARLOS LACERDA

Uma tarde inesquecível viveu o plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo no dia 24 de agosto de 1964, quando homenageou o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, por ter formado com seus colegas Adhemar de Barros e Magalhães Pinto, de São Paulo e Minas, respectivamente, o bloco de governadores civis que deram apoio ao movimento militar de 64 que derrubou o presidente João Goulart. Lacerda era um orador nato. Culto e inteligente arrebatava multidões quando discursava. Não foi diferente com a plateia que o escutou naquela solenidade em sua homenagem na Assembleia Legislativa de São Paulo:

Com a prorrogação do mandato do presidente Castelo Branco em 1966, Carlos Lacerda começou a se opor ao governo que ajudara a consolidar achando que ele se tornaria uma ditadura permanente, o que realmente aconteceu durante 20 anos. Em fins de 1966 lançou um movimento de resistência ao regime militar de 64 denominado Frente Ampla liderado por ele próprio e por antigos adversários, entre eles Juscelino Kubitscheck e João Goulart. Com isso sedimentou a cassação dos seus direitos políticos, que ocorreu em dezembro de 1968.

Carlos Lacerda morreu em maio de 1977, vítima de infarto do miocárdio. Dez anos mais tarde, em maio de 1987, teve restabelecidas, pós morte, as condecorações nacionais que lhe foram retiradas e, ao mesmo tempo, foi reincluído nas ordens do mérito das quais fora excluído em 1968.

DITADURA MILITAR COMEÇOU TRÊS ANOS ANTES

terça-feira, agosto 22nd, 2017

ELOÁ, JÂNIO E DIRCE

Dia 25 de agosto de 1961, apenas sete meses após sua posse, um dos políticos de maior popularidade em todos os tempos, Jânio Quadros, resolveu renunciar ao seu mandato de presidente da República. Muitas hipóteses para justificar seu gesto foram levantadas e nunca devidamente comprovadas. Falou-se em pressão externa, principalmente dos Estados Unidos, por causa da política de Jânio de aproximação com os blocos comunistas, especialmente Cuba e União Soviética. Também se falou nas dificuldades impostas pelo Congresso Nacional ao seu governo, como também aventou-se a tese de que Jânio pretendia em verdade comover a nação com o seu gesto e, se tivesse sucesso, ele fecharia o Congresso e governaria o País ditatorialmente. Dirce “Tutú” Quadros, filha de Jânio, em entrevista a mim concedida na rádio Bandeirantes, em agosto de 2011, deu embasamento para uma outra hipótese:

Dois fatos são verdadeiros no que diz respeito a Jânio Quadros. Ele foi o político de carreira mais meteórica em toda nossa história. De suplente de vereador em São Paulo em 1947, tendo assumido o cargo graças a cassação, naquele ano, do Partido Comunista e a perda de mandato de todos os seus parlamentares, até sua eleição para presidente da República em 1960, decorreram apenas 13 anos. Nesse período ele também foi eleito deputado estadual, prefeito da Capital, governador do Estado, deputado federal e presidente da República. Só não se candidatou ao Senado. Outro fato inegável é que a sua renúncia lançou o Brasil na mais grave crise institucional de sua história abrindo caminho para a ditadura militar que se instalou em março de 64 e perdurou por 20 anos.

ROTOS DENUNCIANDO ESFARRAPADOS

terça-feira, agosto 1st, 2017

DIRCEU E ROBERTO JEFFERSON

Lembram-se do escândalo do mensalão denunciado pelo deputado Roberto Jefferson apontando seu colega de parlamento, José Dirceu, como chefe do esquema? Isso ocorreu entre 2005 e 2006. Em função do que foi apurado, em setembro de 2005 o mandato de Roberto Jefferson foi cassado e em dezembro, do mesmo ano, foi a vez de José Dirceu perder o mandato. Somente em 2012 o STF julgou os implicados no Mensalão, um total de 38 pessoas, entre elas José Dirceu condenado a 10 anos e 10 meses de prisão e Roberto Jefferson a 7 anos. Antes de se tornarem vidraças ambos, além de amigos, eram franco atiradores censurando publicamente quem praticasse os crimes que eles próprios comandavam, como se constata nesta intervenção da correspondente da rádio Bandeirantes em Brasília, Patrícia Oliveira, no dia 25 de julho de 1992:

 

 

Política é ou não é a arte da dissimulação?

ESPETÁCULO PARA NÃO SER ESQUECIDO

quarta-feira, julho 26th, 2017

tres tenores

 

Há 17 anos o estádio do Morumbi viveu uma noite mágica, de intensa emoção e beleza. Os três maiores tenores de tempos modernos apresentaram-se juntos, num espetáculo que para muitos era impossível de se realizar. Foi no começo da noite de 22 de julho do ano 2000. O italiano Luciano Pavarotti e os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras arrancaram aplausos calorosos de mais de 40 mil pessoas que compareceram ao estádio, apesar da chuva e do frio. No repertório, além de árias conhecidas e cançonetas napolitanas, também interpretaram a três vozes músicas internacionalmente consagradas. Uma delas, em particular, levou o público ao delírio e, ao termina-la, José Carreras e Plácido Domingo fizeram rasgados elogios ao público brasileiro:

Luciano Pavarotti já havia se apresentado seis vezes no Brasil e aquele espetáculo a três vozes do dia 22 de julho de 2000, o sétimo, também foi o último de que participou em nosso País. Pavarotti morreu em 2007. Outro que se apresenta com muita constância em cidades diversas do Brasil, é José Carreras. Seu último show por aqui foi no mês de maio, em São Paulo e, por fim, Plácido Domingo também é figurinha conhecida do grande público brasileiro diante do qual já fez muitos espetáculos. Porém, a única vez que se apresentaram juntos no Brasil, numa megaprodução que custou mais de três milhões e meio de reais, foi nesse show do Morumbi, há 17 anos.