
Diego Costa, um sergipano que saiu do Brasil aos 15 anos e joga no Atlético de Madrid, foi a grande surpresa da última lista de convocados do técnico Luiz Felipe Scolari. Numa entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo de hoje ficamos conhecendo um pouco dessa nova aposta. E, a julgar pela frase mais marcante da reportagem (“Pra mim não existe bola perdida”), talvez seja possível imaginar que Diego tem um estilo semelhante ao de Luan, o contestado atacante que Felipão bancou no Palmeiras, contrariando a opinião de todos dentro do clube.

Por Raphael Ramos
SÃO PAULO – Surpresa na lista de Luiz Felipe Scolari para os amistosos contra Itália e Rússia, nos dias 21 e 25, o atacante Diego Costa, do Atlético de Madrid, é um jogador desconhecido do torcedor brasileiro. E não é por menos. Nascido no interior de Sergipe, ele deixou o Brasil com apenas 15 anos. Na Europa, transformou-se no típico jogador de que Felipão mais gosta. “Para mim não existe bola perdida’’, diz ele ao Estado. Aguerrido e polêmico, Diego realizou aos 24 anos o sonho de chegar à seleção. Agora, o desafio é manter-se no grupo até a Copa de 2014.
Você saiu do Brasil muito cedo. Fale um pouco sobre a sua trajetória.
Eu jogava na escolinha e no campeonato amador da minha cidade, Lagarto, no interior de Sergipe. Meu tio que mora em São Paulo foi passar férias lá e, como é apaixonado por futebol, me levou para fazer um teste no Ibiúna, time que disputava a última divisão do Campeonato Paulista. Um empresário me viu jogando e me levou para o Sporting Braga, em Portugal. Eu tinha apenas 15 anos e aceitei. Fiquei um ano sem poder jogar por causa da minha documentação, mas logo na minha primeira temporada o Atlético de Madrid me comprou. Depois eles me emprestaram para outros clubes para que eu pudesse pegar experiência e voltar.
Qual é o seu estilo de jogo?
O pessoal fala muito que sou agressivo. Sempre dou o meu máximo, disputo todas as bolas, ajudo a defesa. Gosto também das jogadas em velocidade e de marcar os gols, porque atacante tem de fazer gol.
O Felipão disse que você é um jogador que sabe guardar posição e abre espaço para os companheiros.
É isso o que eu tenho feito aqui no Atlético. Busco abrir espaço para os meus companheiros, principalmente para o Falcao Garcia. Isso, de alguma forma, ajuda o time.
Para o Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid, você é um atacante muito difícil de ser marcado.
Eu gosto de sempre estar em movimento. Nenhum zagueiro gosta de atacante que se movimenta bastante e eu sou assim. Para mim não existe bola perdida.
Como você se vê dentro da seleção?
O objetivo principal é aproveitar a oportunidade. O Felipão é quem vai ver o melhor posicionamento e a melhor forma de jogar. Tudo vai depender da tática do treinador. Aqui no Atlético, como o time joga muitas vezes com dois atacantes, eu costumo vir por trás, mas também atuo como jogador de área.
Como foi a conversa com o Felipão antes da convocação?
Ele me pegou de surpresa quando disse que do outro lado da linha quem estava falando era o Felipão. Ele perguntou se eu gostaria de defender a seleção brasileira caso um dia surgisse uma oportunidade de ser convocado. Eu respondi que aquele era o meu sonho. Mas o Felipão não disse se eu iria ser convocado agora ou depois. Ele apenas afirmou que estava acompanhando os meus jogos e que a qualquer momento poderia surgir uma chance.
Você chegou a ser convidado para defender a seleção espanhola?
Minha carreira sempre foi aqui na Espanha, então por causa do bom momento que eu e o Atlético estamos vivendo surgiu um comentário na imprensa. Aí, um repórter me perguntou se eu gostaria de jogar pela Espanha e eu disse que meu sonho sempre foi a seleção brasileira. Depois, perguntaram sobre mim para o técnico da Espanha (Vicente Del Bosque) e ele disse que era uma possibilidade para o futuro. Mas eu nem tenho a documentação regularizada para isso, e meu sonho sempre foi defender o Brasil.
Qual é a sua expectativa para os jogos contra Rússia e Itália?
A ansiedade é normal, mas você nunca pode ficar nervoso. Jogar na seleção brasileira é o sonho de todo jogador e estar em um grupo tão valoroso, ao lado de jogadores como Neymar, Kaká, Marcelo e Daniel Alves, é muito gratificante. Vou procurar fazer o meu trabalho e aproveitar o momento porque na vida nem sempre você tem duas oportunidades.
Você concorda com a avaliação de que Espanha e Alemanha têm as melhores seleções do mundo e estão à frente do Brasil?
Pode até ser que Alemanha e Espanha vivam um melhor momento, mas não acho que são os melhores times do mundo. A seleção brasileira tem jogadores do mesmo nível, só precisa encontrar o seu caminho. O time passa por um momento de mudança, com novos jogadores e experiências. Falta só encaixar a equipe, porque o Brasil sempre foi o país do futebol e teve a melhor seleção do mundo. Isso é momento e o Brasil tem plenas condições de ganhar a Copa de 2014.
Como você recebeu as críticas das pessoas que colocaram a sua convocação sob suspeita pelo fato de você e o Felipão terem o mesmo empresário, o português Jorge Mendes?
Isso é uma coisa que eu não posso opinar. Não sabia disso até você me perguntar. Se eu soubesse que fui convocado só por isso eu não aceitaria. Espero que meu trabalho seja reconhecido por aquilo que eu faço dentro de campo. O Felipão vem acompanhando os jogos e através disso ele tem de avaliar quem tem condições de ser convocado.
Você deu uma cusparada no Sérgio Ramos, do Real Madrid, e foi acusado de racismo pelo francês Geoffrey Kondogbia, do Sevilla. O que pode falar sobre esses dois episódios?
As imagens mostram que recebi uma cusparada primeiro e acabei reagindo. Já sobre o jogador do Sevilla, ele interpretou mal. Não tem por que eu ser racista, já que a minha família tem muitos negros. Ele falou isso por causa de uma jogada em que ele pisou em mim e pegou quatro jogos de suspensão. Acho que ele tentou se defender para que a suspensão fosse revista. O pessoal gosta de inventar as coisas.
O Atlético de Madrid é capaz de quebrar a hegemonia de Barcelona e Real Madrid?
Todo mundo sabe que Barcelona e Real Madrid, não só no Campeonato Espanhol, mas em toda a Europa, têm dominado o futebol. Financeiramente são clubes poderosos e, na maioria das vezes, têm os melhores jogadores. Mas o Atlético, a cada partida, está tentando mostrar o seu estilo. O treinador renovou o time e tem um projeto, que é tentar quebrar esse domínio de Barcelona e Real Madrid, mas sabemos que é complicado porque a questão financeira faz muita diferença. Mas estamos no caminho certo.