3 A.M. Três da manhã de sábado, 16 de março. Desligo o celular-despertador. Está na hora. Tudo estava pronto de véspera. A picape estacionada na frente do prédio, com a bike escondida na caçamba. A mala pronta e todo o necessário acondicionado em sacos plásticos: a previsão é de alguma chuva. Leite com müsli e área.
Em pouco mais de 40 minutos estava na Castelo Branco. A viagem ia ser tranquila. Gosto das madrugadas. Me parecem limpas, o ar é fresco, o silêncio é bom, o vazio de gente mostra os detalhes que não vemos das ruas e o alvorecer sempre é fantástico. A chuva, porém, veio mais cedo do que eu imaginava. E veio forte, muito forte. Pensei: melhor agora do que na prova.
Pouco antes de Boituva, a chuva parou. Cheguei ainda escuro, com tranquilidade e estacionei numa das vagas em frente à prefeitura. Sorte, pois este era um problema a menos para resolver. Fiz o checkout com a organização e me preparei para os 200 k. Bolso da esquerda, os géis. No centro, ferramentas e câmeras.
Na direita, máquina fotográfica e planilha. Tudo ensacado. No Camelback, 1 litro d’água e no bolso, carteira, chave e documento do carro. Coloquei o colete cortavento reflexivo e estava pronto. A praça da prefeitura já começava a encher de ciclistas.

Encontrei o grande amigo Claudio Clarindo, a fera que já fez quatro vezes a RAAM (Race Across America), que atravessa os EUA da costa Oeste à costa Leste em quase 5 mil quilômetros em 10 dias. Este ano ele não vai, disse, pois faltou patrocínio. Acho um pouco engraçado isso. Um camarada que está entre os 10 melhores ciclistas de ultradistância do mundo não ter patrocínio. Sei que o que ele precisa tem muito mais a ver com a organização e preparação do que remuneração. Clarindo conta com apoio da Shimano, da Garmin e da Specialized, que fornecem os equipamentos. Mas claro, isso só não basta.
Conversei também com o Rogério Polo e o Richard Dünner, do Audax Randonneurs, duas pessoas excelentes. Contei do projeto Shimano Audax Xperience e mostrei a novidade, o câmbio Alfine 11 (a pronúncia correta é essa mesmo Al-fi-ne) com Di2. A bike, clássica, toda preta, quadro de cromoly (uma Kona Unit 29er singlespeed) chamou a atenção. Vários ciclistas quiseram saber o que era aquele câmbio e – mais – eletrônico. Fiquei feliz em mostrar a novidade.
Pouco menos de 10 minutos para a largada, desespero. Lembrei que não tinha trazido uma chave 15, fundamental para trocar o pneu traseiro, caso furasse. Eu tinha a certeza de que isso não ia acontecer, mas achei por bem ver com quem certamente teria uma chave dessas para emprestar: Richard Dünner, o único que me ocorreu. E, claro, ele tinha e, com toda a gentileza desse suíço, levei uma chave no bolso.
Alívio e um pouco de irritação. Como pude esquecer a tal chave? Preleção lá na frente, comentários aqui atrás – gosto de sair atrás, longe da muvuca que se forma por conta dos mais afoitos. E lá fomos nós. Sem chuva, chão quase seco, temperatura de 20 graus, bastante nublado. Imaginei: sete horas da manhã, com essa temperatura, vou me dar mal com esse cortavento logo mais, quando o tempo esquentar e o sol aparecer. Lembrei da altimetria e não me assustei. Já havia passado por aquilo.
Tudo corria muito bem. Saímos da cidade, entramos na rodovia Castelo Branco e 15 quilômetros depois, entrada na rodovia Antônio Romano Schincariol. Velocidade média 25 km/h. A temperatura estável. Vento a favor? Parecia, mas não era algo que fizesse alguma diferença. Pernas leves e a bike rendia – e muito, apesar de seus 15 kg. Os cálculos fervilhavam a cabeça. Se conseguir manter essa média até a chegada, serão oito horas de pedal. Mais algum tempo nos três postos de controle, nove horas, no máximo. 7 da manhã mais 9 horas de correria e às 16 horas, 16 e pouco estaria de volta. Mais uma duas horas para chegar em casa, banho pizza e vinho. Tudo programado, tudo em paz e o pedal forte em cada momento. Porém, fazer contas é fácil. O difícil é transformá-las em realidade.
Até que, com 25 km de prova e 50 minutos de tempo corrido, pufffffffff f f f f f f. Tudo o que eu não queria tinha acontecido. O que não estava nos planos. Aquilo que era proibido de se falar para não atrair o azar. O pecado, o impronunciável, a miséria. O fim. O pneu traseiro estava furado. Impropérios, lamentações e, finalmente, a compreensão de que teria de me virar, afinal, esse é o espírito Audax. A sorte é que a desgraça aconteceu a poucos metros de um ponto de ônibus. Como o chão estava molhado – ainda não chovia – sentei tranquilamente no banco do ponto e antes de virar a chave 15 na porca, vi a posição das travas, desconectei o câmbio eletrônico e analisei o que deveria fazer. No fim, pensei, parecia fácil. Nada que eu já não tivesse feito quando era moleque, na antiga Monareta vermelha que ganhei do meu pai.
Tirei o pneu e furei o dedo com a farpa – tinha 4 que ficava para fora. Por que não trouxe aquele alicatinho que pesa poucas gramas? Tirar as farpas foi difícil, mas afinal, estava feito. Uma boa verificada para ver se não havia qualquer outro problema e montei o pneu. Enchi a câmera com umas 500 bombadas – a bombinha dá pressão, mas é minúscula e demora para encher. e imaginei que estava bom para me virar até o próximo posto.
Bem, até então, tudo estava mais ou menos tranquilo. Muitos ciclistas passaram por mim e ofereceram ajuda. Eu só pensava: estou atrasado, estou atrasado, tenho de correr. Só faltava encaixar a roda no quadro, coisa simples. Não é. Foi m-u-i-t-o difícil fazer isso. Não sei se é realmente complicado ou se é muita inabilidade minha, mas cheguei a ponto de quase chutar a bike para ver se encaixava. No fim, com aquela calma contida que consigo ter muito bem, desfiz e refiz o procedimento novamente até conseguir. Nesse momento, certamente era o último audacioso do dia e, em minha cabeça, só pensava em tirar o atraso. Tanto é verdade que no momento que encaixava o pé no pedal Click’R da Shimano (aliás, excepcional: pensei que seria difícil para quem, como eu, está acostumado com sapatilhas de speed, mas foi uma excelente surpresa), quem aparece? Rogério Polo, na varredura. Parou, perguntou se estava tudo ok. Estava, não é…. “Rogério, você tem uma bomba de pé?” perguntei, para adiantar meu expediente e evitar parar em posto. “Não, mas tenho CO2″. Era o que eu precisava. Ele apertou a bombinha, calibramos a pressão e pronto. Agora era a hora. Nos despedimos. Eram mais 34 km até o posto Siquelero, na rodovia Raposo Tavares. Eu ia tirar aquele atraso de 45 minutos custasse o que custasse. Mesmo com aquela altimetria (clique para conferir os detalhes da prova)
2013/03/16 11:03.
Pedalei o melhor que pude e alcancei bastante ciclistas. Nem vi a paisagem e amaldiçoei quando passei pela placa que anuncia o Trópico de Capricórnio -poderia ter passado aqui bem antes, resmunguei alto. Atentei para a pista e soquei a bota. Cheguei ao primeiro posto de controle às 10h19.
Fiquei uns cinco minutos no máximo no posto, o tempo suficiente para carimbar o passaporte, tomar Gatorade e comer dois pedaços de um delicioso pão recheado de presunto e queijo que já é tradicional nesses Audax, trazido pela organização. Até então, o balanço era – fora o tempo perdido: estou bem, dá para manter o ritmo – que já havia baixado para 23 km/h em virtude do sobe-e-desce, temperatura ainda nos 20 graus e apenas uma garoa passageira. Bem, raciocinei, vamos chegar ao quilômetro 100 o mais rápido que puder.
Com 70 km rodados, entrei na rodovia Francisco da Silva Pontes, que me levaria ao segundo posto de controle, o posto Ruff’s. Às 10h30, começa a chover. Uns pingos que logo se tranformaram numa chuvarada. E aí começou outra etapa da prova. Sem qualquer receio, forcei a barra. Desci alguns trechos a quase 60km/k para ganhar tempo. Não via nada, pois o aro 29 borrifa água diretamente na sua cara. O único pensamento negativo era em relação ao pneu traseiro. Se furar de novo, nessa chuva, estou frito, calculava. A preocupação mais insistente que vinha à mente era essa. O fantasma que me assombrava a cada minuto, pois com a chuva, a água leva a sujeira para o acostamento, que é onde pedalamos, e aí enche de pedra, sujeira e as terríveis farpas de arame dos pneus de caminhão, que perfuram até o unpuncuturable, assim marcado orgulhosamente na banda lateral do pneu Rubenna de minha bike. Uma mentira deslavada, como pude demonstrar acima.
Nada disso aconteceu e cheguei ao posto 2 completamente encharcado e com os mesmos 23km/h de média, apesar da montanha-russa que é esse percurso. Pensei na minha providência que é até motivo de gozação em casa: colocar saquinhos plásticos para proteger objetos que já estavam acondicionados em sacos plásticos. Não me arrependo. A natureza é absolutamente cruel e destruidora. Quanto mais precavido, melhor. Bem, resolvi dar um descanso um pouco maior – afinal – já tinha 100 k nas pernas – e torcer para, quem sabe, a chuva parar. Novamente comi o pão recheado, um pedaço generoso de paçoca, um gel – o primeiro dos únicos dois do dia e um saquinho – boa ideia, Rogério – de frutas secas salgadas. Acompanhado de uma meia dúzia de copos de Gatorade. Daí, Como nada aconteceu, a não ser a temperatura que baixou para 19 graus e comecei a ficar com muito frio, decidi tocar a volta a Boituva rapidamente. Quem sabe se pedalasse bem forte esquentaria, imaginei. Calculei minhas forças que estavam até então intactas e considerei que chegaria bem ao posto 3, uma versão de volta do mesmo Siquelero da ida, só que do outro lado da Raposo Tavares. Esqueci do descanso merecido e parti para a volta a Boituva debaixo de uma chuva extremamente forte.
O retorno até o posto foi bem, exceto pela água que vinha do céu que realmente castigou. Essa situação criou um problema muito grande, pois era impossível fotografar a experiência. Realmente impossível. Tudo estava absolutamente ensopado, sem a menor chance de fazer nada além de pedalar. E foi o que fiz. Desculpe John, mas não deu para registrar melhor a etapa em face às circunstâncias, que foram absurdamente atípicas. Cheguei com 23 km/h de média e até me senti orgulhoso. Carimbei o passaporte, tomei o outro gel, dois copos de gatorade e cai fora. Não deu cinco minutos. Queria chegar por volta das 17h30 em Boituva.
Até lá, porém, seriam mais 58 quilômetros, incluídos aí os 10 km de subida no final. Por volta da 16h45 a chuva passou e até mesmo uma nesguinha (saudades de Rio Preto) de sol apareceu, tímido e branco, fraco e sem calor. Mas deu o alento que precisávamos – certamente os outros ciclistas também se cansaram de mais de cinco horas ininterruptas de água sobre a cabeça. Nessa altura, já tinha ultrapassado alguns participantes talvez mais cansados e muitos com furos – e a cada um desses que via, o coração batia diferente – e fui bem até estar com 190 km rodados, no pé dos fatídicos 10 km finais. Até então, não tinha tido nada de excepcional, nenhuma cãibra (nenhum sinal de que teria, como não tive) e nenhum cansaço que pudesse ter me esgotado. Porém…não consegui manter o ritmo nesse trecho. Terminei por volta das 17h40 – estava de bom tamanho para mim – e com uma média de 21.9 km/h. A primeira etapa estava cumprida. Medalha no peito e certificado de conclusão.
Esses valeram cada centímetro quadrado. Só faltava a pizza e o vinho, que praticamente estavam na mesa graças à gentileza e a dedicação de minha mulher, a Ita, quando cheguei em casa, por volta das 20h40. Um dia perfeito, com final ainda melhor.
SHIMANO
Ah, esqueci de falar sobre o Di2 Alfine 11. Bem, o equipamento é top. E mais – caro John, avisa lá o presidente da Shimano Latin America Fábio Takayanagi que o produto pode ser usado até embaixo d’água. sem nenhum problema. Foram mais de cinco horas de equipamento molhado sem qualquer interferência. O funcionamento foi perfeito do início ao fim, a troca de marchas absolutamente homogênea mesmo nos momentos mais delicados de subida íngreme e chuva torrencial, e uma boa surpresa: o consumo de energia é quase zero. O equipamento ficou ativo por 10h50 (9h12 de pedalada e centenas de troca de marchas, mais uns 45 minutos de pneu furado e o restante nos postos de apoio) e o medidor de bateria sequer se mexeu. Todos com a mesma precisão e confiabilidade. Aliás, com essa facilidade, dá para negociar qualquer subida mesmo com a relação 32×20, pois as 11 marchas dão conta do recado e garantem o melhor do cicloturismo para os ciclistas que não querem se preocupar com manutenção.
Além disso, o grupo todo, com freios a disco hidráulico funcionou bem demais sob chuva intensa. A segurança das freadas foi colocada à prova sem qualquer risco. Da mesma maneira o sistema pedivela-corrente-coroa, que rodaram tranquilos, sem qualquer barulho e com muita suavidade.
O sistema Click’R de sapatilha e pedal foi ótimo. Com aquela chuvarada, descer da bike nos postos de controle e andar foi uma tarefa fácil. A sapatilha é exatamente igual a um tênis de trekking e pode ser usada até no trabalho. No entanto, essa versatilidade não significa que ela não possa ser usada de maneira mais pesada, como foi essa prova do Audax. A clipagem foi perfeita, sem qualquer enganchamento, com facilidade e segurança. Já lavei a sapatilha e ela, assim como a bike, estão como novas à espera de uma nova aventura Shimano.
Também foi importante a utilização do óculos Shimano S70X-PH/ S70X, com lentes fotocromáticas e a 3D Digital Fit Technology, que possibilita ajustar o óculos à cabeça perfeitamente, inclusive com angulação das hastes, fundamentais para se proteger perfeitamente da chuva e dos respingos do pneu.
